Mensagem do mês
Paulo Freire e a esperança como mutirão Mário Sérgio Corteila
Dentro da nossa sociedade, há uma palavra de que eu gosto demais, que se usa muito mais na área da periferia social e económica do que nas outras áreas da cidade. É uma palavra forte no día-a-día da periferia, que é quando as pessoas se juntam para construir uma obra. É muito comum, o pessoal se juntar no sabadão - com um churrasco, cerveja - para levantar uma laje. Essa laje é levantada por todo mundo junto. Esse levantar da laje junto termina sempre com festa. O que, aliás, é um princípio religioso. O teólogo Leonardo Boff costuma dizer que é uma forma religiosa a festa, Jesus queria a festa. Foi por isso que Ele transformou a água em vinho, e não o contrário.
Esta ideia da festa, de juntar-se, de comemorar depois de se levantar uma laje, ela ganha um nome na área periférica que é "bater laje". Parece até urna coisa francesa, um ar mais sofisticado: "Aonde você foi? Fui a uma 'batelaje'". Mais ou menos como ir a urn vernissage. A burguesia vai ao vernissage e o povão vai à "bateiaje". E nessa "batelaje" se dá um nome que eu acho muito gostoso: mutirão.
A palavra "mutirão" tem origem no idioma tupi. A nação tupi usava a palavra "mutirão" para o trabalho que é feito junto. E a expressão em tupi vem da junção de duas ideias: a noção de tíron, que significa "junto" e pó, que é "mão". Por isso, a noção de potiron é a noção de mãos juntas. E daí que vem para nós a noção de mutirão. Paulo Freire é o grande inspírador deste mutirão. Homens e mulheres que se juntam no dia-a-dia e na história para construir urna outra realidade. Para fazer o inédito viável.
No dia 03 de maio de 2007 foi inaugurada, dentro do campus da Universidade Católica de Brasília, uma esquina, com placa e tudo, chamada Inédito Viável, em homenagem a Paulo Freire. Para que as pessoas dali pudessem sentar-se nos banquinhos na esquina e pensar o futuro. Porque a noção de esquina é muito forte para nós. Paulo Freire usava muito essa expressão da esquina, ele gostava muito de falar da esquina da briga. Aliás, ele dizia que há uma briga na vida que vale a pena ser brigada: a briga pela dignidade coletiva. E dizia ele: "Cada um de nós briga numa esquina". Lembra daquela história da briga da esquina? "Te pego lá na esquina, te espero na esquina"? Ele dizia cada um de nós briga numa esquina. Você briga na esquina da escola pública, o outro briga no núcleo de trabalhos comunitários, o outro briga na universidade, a outra briga na escola privada, o outro briga na ONG, o outro briga num teatro. Paulo Freire dizia: "Na vida, você pode até mudar de esquina, o que você não pode mudar é de briga". E essa briga é, evidentemente, a briga pela dignidade coletiva. Por isso que na UCB há uma esquina com plaquinha em que está escrito: "Esquina Inédito Viável".
O inédito viável é movido por Esperança! Afinal de contas, qual é a primeira palavra que um ser humano é capaz de dizer e de entender? "Não". Você vai com a mamadeira e ele diz: "Não". Você põe na boca, ele cospe. Você quer levar a criança e ela não quer ir, ela solta o peso do corpo e você vai ter de arrastar. Porque ser humano é ser capaz de dizer "não". Ser humano é ser capaz de recusar o que parece não ter alternativa, ser humano é ser capaz de dizer "não" ao que parece não ter saída. E só quem pode dizer "não" pode dizer "sim". Há pessoas que dizem: "Ah, eu queria ser livre como um pássaro". Pássaros não são livres, pássaros não podem não voar, pássaros não escolhem se vão voar ou não, nem para onde vão.
Se quiser ser livre, tem de ser livre como um humano. E isso, um dia, Paulo Freire quando escreveu "Educação como prática da liberdade", estava pensando na nossa humanidade. O que nos caracteriza é a possibilidade da recusa ao óbvio, a recusa àquilo que parece fatal. E, deste ponto de vista, quando lembramos de Paulo Freire estamos lembrando desta ideia da incapacidade de desistir.
Porque quem ama não desiste. Quando você começa a desistir de algo, está começando a deixar de amar. E se há uma coisa que Paulo Freire não fez foi ter desistido. Porque a noção de não-desistência é uma noção amorosa. E quando ele levantava a ideia de uma briga que vale a pena ser brigada, essa briga é pela não-desistência do futuro onde há dignidade coletiva, onde há possibilidade de felicidade, onde há possibilidade de liberdade a ser partilhada.
Paulo Freire alertava: é preciso ter esperança, mas tem de ser esperança do verbo esperançar, porque tem gente que tem esperança do verbo esperar e, aí, não é esperança e sim espera. Ah, eu espero que dê certo, eu espero que resolva, eu espero que funcione. Isso é pura espera; esperançar é ir atrás, énão desistir.
É por isso que fazemos mutirão, é por isso que nos juntamos, é por isso que vamos esperançando...
*Mario Sérgio Corteila é filósofo, mestre e doutor em Educação pela PUC-SP, na qual é professor-titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da Pós-Graduação em Educação (Currículo).